COLUNA DO ÉSIO: As feridas Nacionais

A ideia de crise nunca desapareceu do imaginário nacional brasileiro. Por décadas, os altos e baixos da economia fizeram parte dos diálogos e murmúrios da população tornando-se corriqueiro falar que brasileiro não “desiste nunca”.

Não desistir nunca é a aceitação que lutas intermináveis vão ocorrer e que problemáticas constantes irão afetar as suas vidas, sem uma solução alcançável.

As crises sempre funcionaram como um caminho para a interlocução entre as massas e as elites, conduzindo as massas a uma delegação de responsabilidades para as elites tomarem as decisões. No jogo político, principalmente, de países subdesenvolvidos, as massas sempre responsabilizaram algum setor das elites pelo seus problemas, aguardando soluções, mas as decisões nunca foram verdadeiramente democráticas (políticos representando os interesses do povo).

No Brasil, o processo político sempre foi construído de maneira aristocrática e paternalista, pois as elites e o povo (tratado como massa) decidiram os destinos do país sem construir um verdadeiro projeto de desenvolvimento nacional.

A participação da população nas demandas do país sempre foi insuficiente, pois eleger diretamente alguém pelo voto não garante representatividade (o voto pode ser comprado ou negociado). Basta lembrarmos  da construção de Brasília; da rodovia Transamazônica; da ferrovia Norte-Sul; dos estádios da Copa do Mundo e da realização das olimpíadas.

Uma discussão mais ampla sobre os destinos do país nunca existiu de fato, permanecendo como ideia anacrônica, renegada ao esquecimento numa democracia torta com hiato entre as elites, o governo e o povo.

A herança oligárquica e aristocrática da nossa política contribuíram para o distanciamento da população dos assuntos nacionais, sempre induzidos pela mídia subserviente aos interesses empresariais.

Num cenário mais recente, partidos de centro- direita traçaram metas para modernizar o país em parceria com as empresas estrangeiras em prol do acesso as novas tecnologias, negligenciando problemas como saneamento básico, bem como, partidos de centro-esquerda organizaram práticas populistas oferecendo migalhas financeiras a parte da população e grandes negócios para empresários em detrimento de problemas como a falta de hospitais públicos.

Uma demonstração clara da falta de diálogo e participação popular nas prioridades políticas do país. Um jogo político perigoso para a recente democracia brasileira, na qual o povo é tratado como massa, manipulado pela mídia, sem conhecimento do seu verdadeiro papel social.

Diante dos últimos escândalos de corrupção revelados, surgiu no país uma onda conservadora no imaginário nacional, principalmente, entre os mais jovens.

Se intitular conservador tornou-se elogioso, inclusive nas periferias das grandes cidades, situação muito estranha no país desigual como o Brasil.

No sentido literal, conservador é a pessoa que defende a manutenção das instituições sociais tradicionais como a família, a comunidade local e a religião com usos, costumes, tradições e convenções. No sentido político seria manter a situação do jeito que está.

Se o conservadorismo cresce as possibilidades de discutir mudanças estruturais diminuem, pois as minorias que supostamente representam a maioria no poder, não irão debater projetos para a solução dos problemas essenciais (distribuição de terra, renda, déficit habitacional, mobilidade urbana, saneamento, investimentos em pesquisas etc), pois a estrutura socioeconômica do país tenderá a ser mantida.

Concordar com isso faz as feridas nacionais não cicatrizarem nunca. A falta de diálogo, informação coerente, levou a situações paradoxais como jovens acreditarem que uma ditadura seria a solução para organizar a sociedade ou adultos desiludidos pelos escândalos de corrupção admitirem travessuras (loucuras) de políticos despreparados no poder com naturalidade, sorrindo da desgraça nacional.

Argumentos como: tudo isso já acontecia; não há como modificar a situação num mandato de quatro anos; a economia já se encontrava em crise com rombo nas contas públicas, embora válidos, criam um cenário de acomodação e desesperança causando uma apatia política, favorecendo apenas projetos de permanência no poder.

Chegou a hora das elites verdadeiras e da pseudo elite (aqueles que se esforçam para se sentir elite apesar de não suportar bem o custo de vida do país) apoiarem propostas políticas mais abrangentes, estabelecendo um amplo diálogo nacional.

Os muito ricos precisam assumir o seu papel no auxílio financeiro do governo, a exemplo das economias desenvolvidas onde os empresários se esforçam para salvar a economia quando necessário.

Nas situações de crise (guerras, pandemia, catástrofes naturais) a presença do Estado é  imprescindível, independente do discurso político, principalmente, no país como o Brasil onde quase nada funciona adequadamente.

O conservadorismo precisa ser substituído pelo humanismo. Projetos cooperativistas de geração de empregos e renda precisam ser colocados em prática, repatriamento de divisas, ampliação da tributação das grandes fortunas são alguns exemplos de atitudes que podem reduzir os efeitos nefastos de uma crise. Afinal, os erros de uma geração precisam ser corrigidos para não serem reproduzidos pela próxima.

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